11º Episódio RioFilme: O Cinema Carioca Na Lente Da História

CINE PATHÉ-PALACE (1928)

Nossa jornada pelos cinemas de rua cariocas tem nos trazido a Cinelândia do começo do século XX, no famoso quarteirão dos “palácios de cinema”. Uma época em que o cinema e o Centro da cidade se confundiam e se completavam. Em nosso último episódio, falamos sobre o Cine Odeon (1926), o quarto prédio de entretenimento construído naquela região. E, hoje, pousaremos no Cine Pathé- Palace, construído entre o Cine Glória e o Capitólio e que vem fechar a fileira dos palacetes de cinema. Preparados? A sessão já começou!

O Cine Pathé-Palace, inaugurado em primeiro de outubro de 1928, na Praça Floriano, número 45, faz parte de uma história que começou com o primeiro Cine Pathé (1907), ou Pathézinho, instalado na antiga Avenida Central, detalhado em nosso segundo episódio. Marc Ferrez e família, idealizadores do cinema, colecionam feitos à cinematografia brasileira, entre eles, distribuição, produção e exibição de filmes, assim como do primeiro filme de comédia brasileiro, “Nhô Anastácio Chegou de Viagem” em 1908.


Marc Ferrez, junto com sua família,
entra no rol dos precursores da sétima arte.
(domínio público, lei 9610/98)

Com a promoção da Cinelândia em meados de 1920 e o consequente declínio dos cinemas da Avenida Central, a firma da família de Marc Ferrez estava entre os empresários que decidiram investir no sonho de Francisco Serrador, da criação de um centro de lazer, diversão e arte, um modelo americano da Broadway em pleno centro da cidade. Vale pontuar que mesmo com toda grande especulação da época em torno da Cinelândia, foi pouca a adesão de investidores decididos a apostarem nos “elefantes brancos” de Serrador, como detalha Alice Gonzaga e também João Máximo. Com a recusa de investidores estrangeiros, um modesto número de empresários brasileiros se dispuseram  a colocar dinheiro naquela região: Afonso Vizeu,  Antônio Ribeiro Seabra, Eugênio Honold, Luís da Rocha Miranda, Marc Ferrez e Filhos, Marcolino Ribeiro de Carvalho e Vivaldi Leite Ribeiro. Vale pontuar que dentro deste grupo os Ferrez eram os únicos do setor cinematográfico.

Assim, deu início às construções dos grandes edifícios que comporiam o quarteirão principal da nossa Cinelândia. Entre eles, o novo Pathé – primeiramente com o nome de Pathé-Palace (1928), depois Pathé-Palácio (1937) e Pathé (1960) com o desaparecimento do Pathézinho. Este surge como último dos cinco cinemas que comporia o paredão de palacetes. O prédio que abrigava a sala de exibição, o Edifício Natal de catorze andares, foi projetado por Ricardo Wriedt e ficou pronto em 1927, sendo inaugurado o cinema um ano depois, com uma sala de dois pavimentos e quase mil lugares.

A fachada do Pathézinho da Avenida Central era simples. Mas, com o novo cinema da Cinelândia, a fachada vai se tornar quase uma obra de arte. Gilberto Ferrez, neto de Marc Ferrez, ao escrever para Revista Filme Cultura (1986), relata que um soviético, especialista em fazer cenários para teatro, veio morar no Rio e ficou responsável pelos painéis maravilhosos para fachada do Pathé-Palácio, um show à parte. O cinema era um luxo, o mais afrancesado de todos. O expressivo lustre do Pathé-Palácio representava o olhar do espectador, tendência na arquitetura desses palácios de cinema, segundo João Luiz Vieira e Margareth Pereira.


Lustre do Pathé-Palácio sugere o olho do espectador.
Foto: reprodução de Cynthia Brito,
Revista Filme Cultura, número 47, p. 83.

No Pathé-Palácio, foram exibidas grandes superproduções como o drama histórico, “O Sinal da Cruz” (1932), filme da Paramount Pictures, direção de Cecil B. DeMille, tão aguardado pelo público, estreando simultaneamente no Capitólio em um raro lançamento conjugado. As fachadas dos dois cinemas unidas marca um dia importante para a cinematografia.  


Fonte:  Espaço dos Sonhos (VIEIRA E PEREIRA, 1983).
Revista Filme Cultura, n. 47, 1986.

A Casa Marc Ferrez nunca exibiu filmes de Walt Disney, que era exclusivo da firma Severiano Ribeiro. Porém, ao ser lançada a obra prima de Disney, “Fantasia”, o mesmo veio pessoalmente abrilhantar o lançamento em 1941, segundo Gilberto Ferrez relata para Revista Filme Cultura. Após percorrer todos os cinemas da Cinelândia ele exigiu que seu filme fosse exibido no Pathé, por causa do belo som da casa. Assim foi e “Fantasia” obteve um sucesso extraordinário, ficando 11 semanas em cartaz. “Fantasia” foi lançado com a presença oficial do presidente da República, Getúlio Vargas, fato inédito no país. 


Estreia do Filme Fantasia no Pathé-Palácio, 1941.
Foto em domínio público cedida pela Revista LIFE ao Arquive Google.
(http://images.google.com/hosted/life)

Walt Disney e sua esposa sentados ao lado de Getúlio Vargas e esposa,
assistindo Fantasia no Pathé, 1941
.
Foto em domínio público cedida pela Revista LIFE ao Arquive Google. (http://images.google.com/hosted/life)

O Pathé-Palácio, ou Pathé depois do fechamento do Pathézinho, funcionou na Cinelândia por 70 anos, até ser fechado em 1998. Em 1937 tinha 918 lugares, 680 em 1960 e 671 na atualidade. O prédio em seguida foi restaurado mantendo as características originais, como o piso dos andares, ferragens e mármores das escadas, janelas e principalmente, a fachada com um dos coroamentos mais lindos da cidade. No lugar do antigo Cine Pathé foi aberta uma Igreja Universal que mantém praticamente toda a estrutura da sala de exibição (poltronas, mármores, decoração do interior, espaço para a tela e o lambri de madeira decorando as paredes), recomendamos uma visita à arquitetura de cinema que ainda lembra nosso saudoso Pathé. A pequena Bomboniere Pathé, no térreo do edifício, resistiu ao fim do cinema e continua desde 1920 a servir doces apetitosos.



Fachada do Cinema Pathé, 1931, com seu primeiro nome, Pathé-Palace.
Fonte: Arquivo Nacional, Fundo Família Ferrez.

Fachada do Cine Pathé-Palácio. Fonte: Arquivo Nacional, Fundo Família Ferrez.

Lustre do Cine Pathé reformado na atualidade. Foto de Rafael Bokor

Prédio do Edifício Natal que abrigava o Cine Pathé no século XX.
Foto de Rafael Bokor.

 

REFERÊNCIAS

FERREZ, G. Pathé:  80 anos de vida no Rio. Revista Filme Cultura, n. 47, agosto, 1986.

GONZAGA, Alice. Palácios e poeiras: 100 anos de cinema no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura/ Funarte e Editora Record, 1996. 

GOMES, Paulo Emílio Sales. Cinema:  trajetória no subdesenvolvimento. 2ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

LIMA, Evelyn Furquim Werneck. Arquitetura do espetáculo: teatros e cinemas na formação da Praça Tiradentes e da Cinelândia. Rio de janeiro: UFRJ, 2000.

MÁXIMO, João. Cinelândia: Breve História de um Sonho. Editora Salamandra, 1997

VIEIRA, João Luiz. PEREIRA, Margareth C. S.  O olho na arquitetura das salas de cinema. Revista Filme Cultura, número 47, 1986.