3º Episódio RioFilme: O Cinema Carioca Na Lente Da História

 

CINEMA RIO BRANCO (1907)

Continuamos nossa incrível jornada “RioFilme: O Cinema Carioca Na Lente Da História”. Na última terça, contamos a história do Pathézinho e sua importância para a memória do cinema brasileiro, pois ele foi o exibidor do primeiro filme nacional de ficção. E, hoje, temos a alegria de desembarcar no Cinema Rio Branco, ou mais conhecido em sua época por Cinematógrafo Rio Branco. Inaugurado em 24 de novembro de 1907, na rua Visconde Rio Branco, número 42, o cinema pertencia a firma William & Cia. 

Um dos seus donos era o Cristovão Guilherme Auler, de família alemã, mas nascido em Petrópolis/RJ, passou sua juventude nos Estados Unidos. Ao voltar ao Brasil, entra no mundo do cinema através da sua fábrica de móveis, fornecendo cadeiras para as salas, até fundar, em 1907, a sua própria sala de exibição. Ao se assumir cineasta, mudou o nome para William Auler. Por conta de sua primeira ocupação e apesar de seu cinema se instalar “fora do centro”, o Rio Branco contava com uma luxuosa instalação, móveis sofisticados no padrão art noveau. O Jornal do Commercio na época comentava: “Confortável salão com capacidade para 500 espectadores, bem ventilado e com luxuosa instalação da acreditada Casa Auler & Cia”. 

Dá gosto assistir-se a uma sessão nesse luxuoso cinema, com sua instalação custosa, seus divâs ricos de couro, tacheados a amarelos, seus faiscantes espelhos, encimados por estatuetas de preço, sarpeados por guirlandas de lâmpadas elétricas, sua frequência fina, ostentando ricos costumes, seus programas originais, enfim, tudo quanto é preciso para prender o público com conforto e arte.

(O País, Rio de janeiro, 3-12-1909)

O Cine Rio Branco estava entre os mais bem frequentados pela elite carioca, apesar de ser fora da Avenida Central, famoso por suas encenações inteiramente novas, suas fitas com grande nitidez e de cores naturais, segundo o Jornal Gazeta de Notíciais.  Este jornal relata que os cinemas tentavam atrair o público infantil, entre eles o Rio Branco que utilizava a prática da distribuição de bombons e brinquedos para as crianças e pequenos leques para as mulheres, pois entendiam que com as crianças vinham as mães, filhas e as moças casadouras. Sobre esses dois públicos principais, o colunista de O Paiz, Luiz da Câmara Reys, escreveu que os “espectadores de três a dez anos são talvez os mais entusiastas”. 

O Cine Rio Branco já foi inaugurado com uma fita falante em sua programação, ou seja, os exibidores faziam a combinação por cabeamento de projetores e fonógrafos, explorando os “Cinematógrafos Falantes”. Segundo o pesquisador Fernando Morais Costa, o mesmo espetáculo provia, portanto, acompanhamento sonoro mecânico, pelo fonógrafo em sincronia com o projetor, e música ao vivo, pela orquestra, ressaltando, ao que tudo indica, que esta não acompanhava os filmes, sendo executada apenas nos intervalos entre eles. A orquestra do Rio Branco era responsabilidade do conhecidíssimo da época o maestro Costa Junior.  Em 1908, o cinema exibiu dezesseis falantes novos: A Tosca, Carmen, trio de Bocaccio, Otelo, A Marselhesa, Herodíade, etc.

Inegavelmente este Cinematógrafo bate o recorde no gênero. Ontem não havia um lugar vazio desde às 7 horas até meia-noite. Por várias vezes a polícia interveio para impedir a invasão do público aglomerado na rua, em frente ao cinematógrafo, disputando um lugar. A Tosca foi freneticamente aplaudida e os belos efeitos de tempestade nos Dois Irmãos deixaram o público entusiasmado. Quem quiser um lugar agora nesta casa de diversões compre assinatura (…). Os srs. Wiliam e Cia. estão a caminho da fortuna (…)

(Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 13 de abril de 1908)

Em destaque abaixo, uma relíquia do Cinema Rio Branco com exclusividade. Um programa de 1908 com ênfase na empresa William e Cia., o maestro Costa Júnior e o registro das exibições com o filme cantante em cartaz na época, A Marselheza. Passados 112 anos, a história se faz presente com a descoberta dessa importante peça. Imagem cedida para RioFilme pelo colecionador, o sr. Dalton Lobosco. “Fico contente de colaborar com o trabalho importante que vocês realizam”, disse Dalton.

 

Programa do Cinema Rio Branco, 1908. Em destaque na capa, a empresa William e Cia e o Maestro Costa Júnior. O programa contava com o falante A Marselheza. Fonte: Arquivo Dalton Lobosco. Créditos cedidos à RioFilme.

Willian Auler se apresenta como grande produtor do ano de 1908 dos “filmes cantantes”, aliando-se nesse sucesso a Júlio Ferrez (cuja família era proprietária do Pathézinho). Os “filmes cantantes” consistem a passagem dos falantes estrangeiros para os cantantes de produção nacional, na filmagem da execução de canções que eram sonorizadas ao vivo, por cantores consagrados escondidos atrás da tela. Apesar da absurda ideia de se ter o cantor famoso escondido atrás da imagem cantante, os “filmes cantantes” tinham boa sincronia e foram sucesso absoluto. Auler entra na produção a partir da exibição. Seus “filmes cantantes” provavelmente tinham o intuito de manter a sua sala lucrativa. Com o sucesso, nos anos seguintes a produção de cantantes aumenta e se diversifica. No dia 15 de fevereiro de 1908 a coluna Binóculo pediu para que os frequentadores da Avenida Beira-Mar aparecessem até às 17 horas para serem filmados pelo cinegrafista do Cinema Rio Branco.

Filmagem do Filme Cantante Barcarola exibido no Cinema Rio Branco, filmado por Julio Ferrez na Praia do Arpoador, Rio De Janeiro (SOUZA, 2019, p. 298)

Em 1909 O Cine Rio Branco anuncia sua grande novidade a opereta “A Viúva Alegre”. Alberto Moreira adaptou a opereta para o cinema e o maestro Costa Júnior ficou com a parte musical. A opereta filmada era um passo adiante importante em relação aos cantantes montados com solos e duetos, ainda que somente aumentasse o número para três cantores na condução da trama. Alberto Moreira escreveu uma primorosa obra cinematográfica, gênero novo na nossa literatura e que só na França se arriscaram em fazer, segundo falavam os críticos, tornando um dos grandes sucessos de público para o Cine Rio Branco. Em outubro daquele mesmo ano A Viúva Alegre já havia feito sua centésima apresentação. Um êxito comparável foi o filme Paz e Amor, estreado no Rio Branco em 25 de abril de 1910, tido como film d’art nacional. O ponto de partida para o enredo tinha sido a frase do presidente Nilo Peçanha ao assumir o cargo: “Farei um governo de paz e amor”. O filme era uma sátira à elite local e parodiou o então presidente do Brasil. O filme foi exibido mais de 1000 vezes no Rio Branco.

Foto do maior sucesso do cinema Rio Branco, Paz e Amor. O Chaleira (No Centro) representaria o articulador político Pinheiro Machado, tendo de cada lado os candidatos presidenciais Rui Brabosa e Marechal Hermes da Fonseca. Fonte: Fon-Fon, n. 18, Rio De Janeiro, 30-4-1910. Disponível em Souza, 2019.

O filme Paz e Amor estava em cartaz quando em 08 de julho de 1910 houve um incêndio no Cinema Rio Branco. O incêndio começou por volta das 15h e tomou todo o primeiro andar, inclusive a sala das películas, destruindo um grande arsenal de filmes cantantes produzidos. Do cinema salvaram as cadeiras de primeira classe, o projetor, alguns filmes como Paz e Amor e O Chantecler, filme que estrearia em seguida. Desde então, o sucesso do cinema não foi o mesmo. Após o incêndio, o cinema se instalou no número 53 da mesma rua Visconde Rio Branco, depois foi para o Parque Fluminense e depois para Petrópolis, enquanto se providenciava um cinema definitivo. Este apareceu na Rua Gomes Freire, número 13/19, com um segundo cinema Rio Branco com agora mil lugares. Este também teve uma vida muito curta. Em 15 de maio de 1915 foi vendido e todo o equipamento da casa de espetáculos foi a leilão. O primeiro prédio ainda existe e hoje é uma hospedaria “Hostel para Cavalheiros”. No térreo funciona uma papelaria, dois bares, uma tinturaria e uma chapelaria.

Incêndio no Cinema Branco, 1910. Fonte: O País, Rio de Janeiro, 8-7-1910. Disponível: Souza, 2019, p. 314.

Saída de uma sessão do Cinematógrafo Rio Branco. Arquivo do Museu da Imagem e do Som. Disponível: Revista Filme e Cultura, n 47, 1986.

Imagem do prédio na Visconde Rio Branco, hoje uma loja no primeiro andar e um hotel nos andares de cima. Fonte: Google Maps, 2019. 

Imagem do prédio na Visconde Rio Branco, hoje uma loja no primeiro andar e um hotel nos andares de cima. Fonte: Google Maps, 2019. 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CINEMATOGRAFIA. Pequena História da Cinematografia no País. Por Carlos Ebert. Disponivel: https://abcine.org.br/site/pequena-historia-da-cinematografia-no-pais/ [acesso em 20/07/2020]

COSTA, Fernando Morais da. Primeiras tentativas de sonorização no cinema brasileiro (os cinematógrafos falantes: 1902-1908). Mnemocine, 2009.

 

GONZAGA, Alice. Palácios e poeiras: 100 anos de cinema no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura/ Funarte e Editora Record, 1996.

 

JOHNSON, Randal   The Film Industry in Brazil: Culture and the State University of Pittsburgh Pre, 15 de abril de 1987, p. 31, ISBN  978-0-8229-7644-8 [acessado em 15-07-2010] 

LOPÉZ Ana M. Auler, William , [em:] Richard Abel , Encyclopedia of early cinema , Londres: Routledge, 2005, loc. 3238, ISBN  0-415-23440-9 . 

 

SOUZA, José Inácio de Melo. Imagens do Passado: São Paulo e Rio De Janeiro nos Primórdios do cinema. Editora Senac: São Paulo, 2019.

 

———, REVISTA USP, São Paulo, n.54, p. 136-150, junho/agosto 2002. Disponivel em : file:///C:/Users/16252977/Downloads/35229-Texto%20do%20artigo-41486-1-10-20120730%20(1).pdf . Acessado em: 15-07-2020