4º Episódio RioFilme: O Cinema Carioca Na Lente Da História

CINEMA IDEAL (1909)

Hoje, seguimos com a incrível jornada pelos cinemas de rua cariocas. Nosso terceiro episódio foi muito especial, o Cinema Rio Branco e sua importância para a história do cinema brasileiro através da produção e exibição dos seus filmes cantantes. Também com exclusividade, a RioFilme mostrou uma relíquia de 1908. Um programa do Cinema Rio Branco de 112 anos, tornando a história presente com a descoberta dessa importante peça. E, nesta terça, pousaremos no Cinema Ideal. Preparados? 


Localizados na Rua da Carioca, números 60, 62 e 64, os quatro sobrados que compunham originalmente o
Cinema Ideal foram construídos em 1905 pelo construtor Miguel Bruno, a mando de seu proprietário, o Visconde de Moraes. O cinema foi inaugurado em 2 de outubro de 1909, quando a Empresa Pereira, Pinto e Cia., do ramo cinematográfico, adquiriu os quatro imóveis. Ele foi o primeiro cinema da Rua da Carioca. Dias depois ela receberia o Cine Íris, no número 49, grande concorrente do Ideal. Este que, mesmo sendo inaugurado em outubro, somente em 9 de novembro começou a funcionar. 

Dentro da sua arquitetura, há uma cúpula móvel assinada por Gustave Eiffel, engenheiro francês que construiu a Estátua da Liberdade e a Torre Eiffel – é uma das poucas obras do engenheiro construídas fora da Europa. Obra elegante construída em cimento e ferro, ocupando cerca de duzentos metros quadrados, que eletricamente se abria em duas partes, oferecendo à época melhor ambientação e conforto. Ficava aberta nas noites de verão, as famosas “soirées”. Não se sabe exatamente quando a cúpula foi introduzida no Cine Ideal, mas alguns acreditam que como o primeiro proprietário era um Visconde, ele teria trazido da Europa este monumento. Outros acreditam que foi em 1913, quando os proprietários do cinema queriam abrilhantar o local. Sem dúvida era a grande novidade da cidade à época: abrindo durante as sessões para renovar o ar e refrescar o ambiente. Era a única casa na América do Sul a projetar ao ar livre.


Cúpula móvel assinada por Gustave Eiffel que se abria eletricamente para refrescar o ambiente.
Fonte: Fundação Casa Rui Barbosa. Disponível: http://www.maisonleffie.com.br/historia?lightbox=dataItem-jdarv4kf3

Em 1921, o local passou por uma grande reforma que ampliou sua sala de projeção e colocou-o entre os maiores cinemas da cidade, ao lado do Cinema Avenida Central e do Íris. O novo proprietário era o Manoel Pinto. A reinauguração foi em setembro com um “ato solene” com a presença do conselheiro Rui Barbosa, representantes do prefeito e do chefe de polícia, congressistas, jornalistas e empresários. Contava com uma sala de espera ampla, elegante, luminosa e ventilada agradavelmente. Havia um coreto ao fundo onde tocava uma orquestra de senhoritas regida pela Mademoiselle. Maria Luíza. O salão de espetáculos revestidos de belíssimos azulejos ingleses, geométricos e florais, que formam uma faixa de aproximadamente dois metros de altura circundando todo o balcão e escadarias. As paredes foram pintadas por André Vento em puro estilo árabe, característico por cores fortes e muitos detalhes sofisticados.


Reinauguração do Cine Ideal, Rio de Janeiro, 1921. J
osé Joaquim da Palma e Manuel Pinto a direita de Rui Barbosa, no saguão do cinema. Fonte: Coleção Rui Barbosa/Fundação Casa de Rui Barbosa.

O Cine Ideal tinha uma disputa saudável com o Íris, proprietários amigos que se divertiam disputando entre si os fãs de cinema. Às segundas-feiras a Rua da Carioca ficava intransitável na hora da abertura dos cinemas. Juntava os públicos de um e do outro. Eles inovaram exibindo séries e seriados que foram um sucesso no início do século XX. O Ideal exibia os filmes da Pathé e os grandes sucessos como Estrela de Nova York e O Mistério das Sete Pedras. Este era o cinema preferido do Rui Barbosa que tinha uma cadeira cativa que continuou interditada depois de sua morte e identificada com uma placa comemorativa. Hoje a cadeira se encontra na Casa Rui Barbosa.


Cadeira cativa de Rui Barbosa no Cine Ideal interditada depois de sua morte. Acervo Cine Ideal
. Disponível: Revista Filme Cultura, n. 47, 1986.

As sessões começavam 13h e interrompiam o trânsito, ninguém passava. Quando tocava a campainha para começar, a multidão levava porta e tudo para dentro… Eu preferia os filmes do Ideal; o Adhemar Gonzaga preferia os do Íris. Ele gostava mais de cow-boys, e eu das artistas bonitas.

(Pedro Lima, Revista Cultura Filme, n. 47, 1986).

Em 1926, o Cinema Ideal passou a integrar a rede de cinemas de Luiz Severiano Ribeiro. Em 12 de maio deste mesmo ano, foi reinaugurado  como cine-teatro pelo seu novo proprietário,  Manoel Pinto, no dia de seu aniversário. A peça escolhida foi Cala a boca, Etelvina, de Armando Gonzaga. O elenco, encabeçado por Alda Garrido, contava com a participação de Olga Louro, Georgina Guimarães, Rosita Rocha, Manoel Durães, Augusto Annibal, Américo Garrido, Gervásio Guimarães e Pedro Celestino. O ensaiador foi o Sr. Augusto Santos. A música de Freire Junior teve versos de Ruben Gill.

Depois do seu fechamento em 1961, parte do imóvel foi destruído e deu lugar a uma sapataria (Polar). Mais tarde, em 1994, os dois sobrados que originalmente comportavam a sala de projeção, sofreram um grande incêndio. Posteriormente, no ano de 1996, a construção foi vendida aos comerciantes Maurício Francisco Tauil e João Alves Ferreira. Logo após, foi transformada em uma boate muito frequentada e conhecida como “templo da house music”, até ser fechada em 2014.

Em novembro 2015, o prédio número 62, depois de ser alugado e passar por uma grande reforma, é reinaugurado trazendo novos ares para rua com um novo empreendimento, com um novo nome, o salão de eventos Maison Leffié. O art decó do lendário cinema não foi perdido.  O espaço passou por um longo estudo para manter a elegância da arquitetura original, com a cúpula de Gustave Eiffel. Leffié significa Eiffel ao contrário, disse uma das sócias, Rita de Cássia Silva, que concedeu uma entrevista exclusiva para a RioFilme. Arquiteta, ela nos relatou que ao entrar no prédio todo deteriorado o que mais chamou sua atenção foi a cúpula, que de imediato não conhecia a origem. Tão logo, descobrindo sua importância histórica, aumentou seu encanto e seu desejo de reformar o espaço. 

Como o prédio é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), os atuais locatários tiveram que respeitar todas as regras de conservação da memória do local. Devido a importância, compartilhamos essa entrevista neste episódio. “Tenho um sonho de que esse lugar voltasse a ser o que era antes”, disse Rita de Cássia, que logo muda o tom ao nos confidenciar que a pandemia vem tornando este seu desejo cada vez mais difícil. Sem incentivo, ela nos relata emocionada que se o espaço permanecer fechado por mais alguns meses, ela não terá mais fôlego de continuar acreditando em seu sonho. “Eu acredito no turismo do Rio, eu acredito na cultura do Rio”, fala a arquiteta emocionada. 


Fachada do Cinema Ideal
, Rua da Carioca. Arquivo Geral da Cidade. Disponível: Revista Filme Cultura, 1986. 


Sala de projeções do Cinema Ideal
. Casa Rui Barbosa. Disponivel: http://iconografia.casaruibarbosa.gov.br/fotoweb/Grid.fwx


Distribuição de brinquedos às crianças do Cinema Ideal.
Fonte: Careta, 22 de janeiro de 1910, n. 86. Disponivel em: https://cinemasilenciosonoriodejaneiro.wordpress.com/author/cinemasilenciosonoriodejaneiro/

 
Sala de projeção do Cinema Ideal e cúpula móvel assinada por Gustave Eiffel
. Fonte: Revista Filme Cultura, 1986, p. 125.
Hoje, a Maison Leffié. Foto: Arquivo RioFilme.

 
Fachada do Cinema Ideal
. Fonte: Revista Filme Cultura, 1986, p. 127.
Hoje, a fachada do Maison Leffié. Foto: Arquivo RioFilme.


Foto: Arquivo RioFilme.

 

REFERÊNCIAS

ALCANTARA, Antonio Pedro; CONFORTO, Gerson; SAMPAIO, Júlio César Ribeiro. A Recuperação do Ideal e revitalização urbana. Revista Filme Cultura, n. 47, agosto de 1986.

CANDIDA, Simone.  LIMA, Ludmilla. Antigo cinema ao ar livre, Cine Ideal reabre como casa de eventos. Jornal O Globo, 22 de novembro de 2015. Disponivel em: https://oglobo.globo.com/rio/antigo-cinema-ao-ar-livre-cine-ideal-reabre-como-casa-de-eventos-18110211

FREIRE, Quintino G. Onde era o Cine ideal agora tem uma casa de eventos, a Maison Leffié. Diário do Rio, 26 de novembro de 2015. Disponível: https://diariodorio.com/onde-era-o-cine-ideal-agora-tem-uma-casa-de-eventos-a-maison-leffie/

LIMA, Pedro. Na década de 10, os fãs lotavam o Íris e o Ideal. Revista Filme Cultura, n. 47, agosto de 1986.

PINTO, Aloysio de A. A música, o pianeiro e o cinema silencioso. Revista Filme Cultura, n. 47, agosto de 1986.