6º Episódio RioFilme: O Cinema Carioca Na Lente Da História

CINE ODEON (1909)

Terça-feira é dia da nossa jornada pelos cinemas de rua cariocas. No episódio anterior, pousamos no Cine Íris de 1909, o cinema de rua mais antigo que ainda resiste no Rio de Janeiro, e nos emocionamos com a entrevista da neta do fundador João Cruz Júnior, Neyde Cruz. E, hoje, nosso sexto episódio está incrível, uma mistura boa da história do antigo Cine Odeon com a música de Ernesto Nazareth. A sessão já começou!

 

 

Quando falamos em Cine Odeon, logo nos lembramos do prédio bonito localizado na Cinelândia, inaugurado em 1926, e que atualmente foi transformado no Odeon BR, Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro. Na verdade, o cinema que falaremos neste episódio foi inaugurado em 16 de agosto 1909 pela empresa Zambelli & Cia., de Raul Zambelli, na Avenida Central (atual Rio Branco), número 137, esquina com a Rua Sete de Setembro. Ficava no lado ímpar da avenida, local menos valorizado em virtude de ser mais castigado pelo sol, o que tornava as sessões vespertinas do verão insuportáveis para os frequentadores. Contudo, o antigo Odeon, já trazia o luxo, a elegância e a preferência dos espectadores.

O cinematógrafo possuía duas salas para a exibição de filmes, além da luxuosa sala de espera, com um piano, tipo armário, com dois castiçais de metal, enfeitado com cortinas furta-cor. Segundo Luiz Antônio de Almeida, em seu assoalho de mármore preto havia pequenos espelhos incrustados que procuravam dar, quando refletiam algum raio de luz, a impressão de pedras preciosas.  Rebuscados programas e reclames constituíam o informe publicitário daquela casa de espetáculos, representando as elites através de figuras elegantemente vestidas, ao lado dos vários números apresentados tanto na sala de projeção quanto na sala de espera. No Odeon tinha sessões diárias e passava todo gênero de filmes: dramas, suspenses, viagens, etc.


Cartaz do Cine Odeon da empresa Zambelli & Cia.
Fonte: Acervo de Luiz Antonio de Almeida

O Cine Odeon era famoso por ser um dos mais luxuosos da avenida, mas, principalmente, pela boa música tocada na sala de espera antes das sessões. Este lugar logo se instaurou como um polo cultural que reunia a elite da época. Ainda em 1909, o célebre pianista Ernesto Nazareth, foi contratado para tocar na sala de espera do Odeon. Naquele tempo, era costume se chegar uma hora antes do filme e ficar apreciando as atividades da sala: pequenas orquestras, músicos típicos ou, mesmo, para um bate-papo. Antes de trabalhar no Odeon, as músicas de Nazareth já eram apreciadas, mas, foi neste cinema que sua figura ficou conhecida. Era comum dizer: “- vou ao Odeon para assistir Ernesto Nazareth”. Ele geralmente tocava às tardes, a partir de 13h já podia se ouvir sua música. Segundo Alceo Bocchino, Chopin e Beethoven eram ouvidos vez por outra, mas a estrela presente no Odeon sem dúvida era a brasilidade da música de Nazareth. Nosso compositor virou o nome do momento, ficando notório o fato de muita gente ir ao cinema só para ouvi-lo, deixando, inclusive, de assistir aos filmes, como nos fala o biógrafo do músico, Luiz Antonio de Almeida. Tão afetiva era a relação de Nazareth com o Odeon que ainda em 1909, ele compôs uma música que leva o nome do cinema, o tango brasileiro, ou, melhor dizendo, o choro “Odeon”, letrado por Vinicius de Moraes nos anos 1960 que virou sucesso em todo o Brasil.

A presença de Nazareth no Odeon tornou-se acontecimento significativo para a vida musical da cidade. Havia muita gente que comprava o ingresso e, em lugar de entrar nas salas de projeção, ficava ali, junto do estrado, a ouvi-lo tocar horas a fio.
(PINTO, 1963, p.41).


Ernesto Nazareth, 1908. Fonte: Acervo de Luiz Antonio de Almeida


Partitura da música Odeon, composta pelo Nazareth, tango dedicado a empresa Zambelli & Cia.
Fonte: Acervo do Luiz Antonio de Almeida

Dentre as personalidades de destaque que frequentavam o Cinema Odeon e que apreciavam a música de Nazareth, figuravam Rui Barbosa, Darius Milhaud, Henrique Oswald, Villa-Lobos, Arthur Rubinstein, Tomás Téran, entre outros. Mas, também, havia gente que, sem recursos na época para pagar o ingresso, ouvia Nazareth do lado de fora do cinema. O pianista Radamés Gnattali compartilha sua experiência:

(…) No Cinema Odeon, na Rio Branco, esquina com Sete de Setembro. Eu vinha andando pela avenida e ouvi um som de piano. Era o Nazareth tocando e eu já conhecia as músicas dele. Nazareth tocava num piano de armário em cima de um estrado, perto de umas cadeiras de veludo, atrás de uma parede de vidro na sala de espera.
(Radamés Gnattali citado por DIDIER, 1996, p.75-76)


Sala de espera do Cine Odeon. Fonte: Acervo do Luiz Antonio de Almeida

Ernesto Nazareth morava com sua família a menos de 30 metros do Odeon, na Rua Sete de Setembro, número 81, próximo à esquina da Rua Rodrigo Silva. Era um sobrado novo, de três andares (eles moravam no último). Infelizmente, foi demolido em meados da década de 1970. Já o antigo Cinema Odeon, durou até 1918 (com pausas entre 1914 e 1916). O prédio foi demolido no final de 1920  para a construção do Edifício Guinle. Através da Companhia Brasil Cinematográfica, em 1917, Francisco Serrador comprou o antigo Odeon, além do Pathé e do Avenida. Futuramente, precisamente em 1926, o Cine Odeon foi reinaugurado no auge dos cinemas da Cinelândia. Mas, isso são cenas de nossos próximos episódios.


Fachada do Cine Odeon, Avenida Central e esquina com Rua Sete de Setembro
.
Fonte: Acervo de Luiz Antonio de Almeida.


Antigo Cinema Odeon, atualmente Edifício Guinle
. Fonte: Google Maps, 2020.

 

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Luiz Antonio de. Ernesto Nazareth, Vida & Obra. Biografia registrada pelo Instituto Moreira Sales. Disponível em https://ernestonazareth150anos.com.br/Chapters/index/16

DIDIER, Aluísio. Radamés Gnattali. Rio de Janeiro: Brasiliana, 1996.  

LIMA, Luciano Chagas. Ernesto Nazareth e a valsa da Suíte Retratos de Radamés Gnattali. Revista Per musi  n.23, Belo Horizonte Jan./June 2011. Disponível: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-75992011000100013&script=sci_arttext

PINTO, Aloysio de Alencar. In: Revista Brasileira de Música 6. Rio de Janeiro: Editora e Gráfica Polar, 1963.

RIBEIRO, Leila., BESSA, Márcia.,FILHO, Wilson Oliveira. Do Cinema de Rua ao Cinema Ao Vivo: A Memória do Cine Odeon entre a Tradiação e a Experimentação. Anais do 34ª Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu, MG, 2010. Disponível: https://www.anpocs.com/index.php/papers-34-encontro/st-8/st24-4/1590-mlwilson/file