9º Episódio RioFilme: O Cinema Carioca Na Lente Da História

CINEMA IMPÉRIO (1925)

Em nossa jornada pelos cinemas de rua cariocas, continuaremos na Cinelândia do começo do século XX, no sonho de Francisco Serrador, de construir no centro do Rio de Janeiro, entre o Palácio Monroe e o Theatro Municipal, os mais belos edifícios de entretenimento, inaugurando nossa Broadway brasileira. No episódio passado, falamos do Cine- Teatro Glória (1925), e, hoje, pousaremos em mais um desses grandes edifícios, o Cinema Império, inaugurado também em 1925. 

Considerado o menor cinema dentre todos os outros da Cinelândia, era notadamente uma das mais luxuosas, iluminadas e confortáveis casas de diversão do Rio. Inaugurado em 12 de novembro de 1925, na Praça Marechal Floriano, número 19, o Cinema Império foi a terceira casa de espetáculos que a Companhia Brasil Cinematographica de Francisco Serrador construiu nos terrenos do antigo Convento da Ajuda, ao lado do Glória e do Capitólio. Ele foi inaugurado com um espetáculo exclusivamente cinematográfico. O filme exibido foi “Vencedora de Corações” (The heart of a siren, EUA, 1925) da First National, dirigido por Phil Rosen, estrelado por Barbara La Marr, interpretado também por Conway Tearle, Ben Finney, Harry Morey, Arnald Daly e Cliphton Webb.


Barbara La Marr e Ben Finney no filme
“Vencedora de Corações”
(The heart of a siren, EUA, 1925)
.
Fonte: Daily News, New York, abril de 1925.

 


Inauguração do Cine Império em 12/11/1925.
Filme exibido: “Vencedora de Corações” da First National.
Fonte: Acervo da Cinemateca do MAM. 

A fachada, com a frente voltada para a Praça Marechal Floriano, ocupava o andar térreo e os dois primeiros pavimentos de um edifício de oito andares. Toda sua estrutura, com a tela recuada e um palco extenso, foi preparada para além de exibição de filmes, receber os prólogos, apresentações de palco que precediam a projeção. Eram esquetes acompanhados por números de canto e dança que remetiam ao tema/personagens/diálogos do filme em cartaz. O curioso é que dependendo da temática, até os funcionários do cinema (da portaria a bilheteria) vinham a caráter. 


Sala de exibição do Cine Império, 1927.
Palco amplo para receber os prólogos.
Fonte: Acervo Cinemateca do MAM.

O Império e o Capitólio foram os primeiros a receber esta interação entre cinema e teatro que já era um sucesso americano e viraria também um grande sucesso nos cine-teatros de Serrador a partir de 1926. A primeira peça apresentada, no Império, foi “Onde não há lei seca”, com Amélia de Oliveira, Tulia Burlini e Arthur de Oliveira. A imprensa da época anunciava a novidade:

Os cinemas do lado da Ajuda têm agora esta novidade – os prólogos. 

Inventou isso a seção de propaganda de uma agência, assim que os filmes dessa marca passaram a ser ali exibidos. O intuito foi bem. Dizem que algumas casas da Broadway usam desses prólogos, e como a moda cinematográfica vem da América do Norte, devemos curvar-nos à invenção. O intuito é bom, repetimos, mesmo porque um prólogo bem feito deve constituir uma atração.

 (Selecta, ano XII, n.16, 21 abril de 1926, p.11)

Fábio Vellozo, coordenador de pesquisa da Cinemateca do MAM, diz que na época muitos prólogos faziam mais sucesso que o filme exibido: “muitas pessoas iam ao cinema para ver os prólogos e não o filme”, diz Vellozo. Segundo a pesquisadora Luciana Araújo, os prólogos logo encontrariam resistência dos críticos de cinema, por exemplo, a revista Selecta e  Cinearte irão se engajar, ao longo de 1926, numa sistemática campanha contra aqueles prólogos considerados “envenenados”. Depois que finalmente as salas de cinemas conseguiram atrair o “público fino”, a “elite social do Rio de Janeiro”, alerta Cinearte, vieram os prólogos: 

timidamente a princípio, alargando-se depois, ampliando-se, transbordando afinal, convertidos em verdadeiras peças de teatro, sacrificando os filmes, tomando a maior parte do tempo da sessão, como a querer constituir a parte principal do espetáculo oferecido ao público” 

(Cinearte, ano I, n.19, 7 jul 1926, p.3). 

Adhemar Gonzaga e Pedro Lima também empreendem uma campanha em defesa do cinema brasileiro, numa militância constante, entre outros pontos programáticos, pelo saneamento do meio cinematográfico, desvinculado da vulgaridade do teatro. Fábio Vellozo nos diz que os prólogos eram tidos como “vulgares”, “baixo calão”, em um nítido preconceito com o teatro popular.

Em agosto de 1926 a Paramount compra de Serrador os cinemas Império e Capitólio, controlando pela primeira vez a exibição de seus filmes. Ir a um desses cinemas seria para assistir filmes exclusivos da Paramount. Assim, a poderosa organização cinematográfica norte- americana, além de centenas de casas nas principais cidades dos Estados Unidos e Canadá, com salões próprios em Paris, Londres e algumas outras grandes cidades europeias, conta agora com duas casas de cinemas importantes no Brasil, anuncia a Cinearte de 18 de agosto de 1926. A revista também diz que seria impossível para Serrador administrar cinco cinemas ao mesmo tempo.

O Cine Império foi demolido em 1979 para construção de um prédio comercial.  Fica a memória nas imagens preservadas pelos arquivos históricos, como é o caso da Cinemateca do MAM. Sobre isso, Fábio Vellozo, em entrevista exclusiva para a RioFilme, diz que “ o bom seria que esses prédios fossem preservados e virassem museus e um deles o ´Museu do Cinema`(…) Mas, enquanto isso não acontece, nos resta guardar a memória desses tempos incríveis, onde um dia, aqui no Brasil, já tivemos uma pequena Broadway” .


Cine Império, bilheteria, 1968. Fonte: Acervo da Cinemateca do MAM.

Cine Império, 1976. Fonte: Acervo da Cinemateca do MAM.

Fachada do Cinema Império, Cinelândia primeira metade do século XX.
Fonte: Arquivo Nacional.

Cine- Teatro Império. Fonte: Acervo da Cinemateca do MAM.

Cine Império, entre o Glória e o Odeon, Cinelândia.
Fonte: Arcervo do MIS.

Referencias:

ARAÚJO, Luciana Corrêa de. “Prólogos envenenados”: cinema e teatro nos palcos da Cinelândia carioca. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho “Mídia e Entretenimento”, do XVIII Encontro da Compós, na PUC-MG, Belo Horizonte, MG, em junho de 2009. Disponível em: file:///C:/Users/16252977/Documents/referencias/imperio%20prologos.pdf . Acesso em agosto de 2020.

CENTRO TÉCNICO DE ARTES CÊNICAS (CTAC). E o Teatro Virou Cinema. Cinema-Theatro Império. Disponivel: http://www.ctac.gov.br/centrohistorico/TeatroXPeriodo.asp?cod=153&cdP=5

MÁXIMO, João. Cinelândia: Breve História de um Sonho. Editora Salamandra, 1997

VIEIRA, João Luiz. PEREIRA, Margareth C. S.  Cinemas Cariocas: da Ouvidor à Cinelândia. Revista Filme Cultura, número 47, 1986.